Boletim Científico - Número 10 - Outubro de 2009
Editores:
Walter J. Gomes – wjgomes.dcir@epm.br
Domingo M. Braile – domingo@braile.com.br
Prezados amigos
Este é o décimo número deste ano do Boletim Científico da SBCCV,
abrangendo tópicos de interesse clínico e cirúrgico.
Os artigos são apresentados em forma de resumo comentado e se houver
interesse do leitor no artigo completo em formato PDF, este pode ser
solicitado no endereço eletrônico brandau@braile.com.br
Ressaltamos que será bem-vindo o envio de artigos de interesse por parte
da comunidade de cirurgiões cardiovasculares. Também comentários,
sugestões e críticas são estimulados e devem ser enviados diretamente aos
editores.
Para pedido do artigo na íntegra - brandau@braile.com.br
Resultados do estudo CARDIa reproduzem SYNTAX e falham em
demonstrar que a intervenção coronária percutânea é não-inferior à cirurgia de revascularização do miocárdio.
Kapur A, et al. Randomized Comparison of Percutaneous Coronary Intervention With
Coronary Artery Bypass Grafting in Diabetic Patients. 1-Year Results of the CARDia
(Coronary Artery Revascularization in Diabetes) Trial. J Am Coll Cardiol, published online 25
November 2009.
O objetivo deste estudo (CARDIa - (Coronary Artery Revascularization in
Diabetes) foi comparar a segurança e a eficácia da intervenção
coronária percutânea (ICP) com implante de stent versus a cirurgia de revascularização do miocárdio (CRM) em pacientes com diabetes e
doença arterial coronária multiarterial sintomática.
Um total de 510 pacientes diabéticos com doença coronária multiarterial
ou com lesão complexa de vaso único foram randomizados em 24
centros para ICP e stent (mais abciximab) ou CRM. O desfecho primário
foi composto de mortalidade por todas as causas, infarto do miocárdio
(IM) e acidente vascular cerebral (AVC); e o desfecho secundário incluiu
a necessidade de revascularização adicional para os eventos do desfecho
primário. A comparação usou um método de não inferioridade com o
limite superior do intervalo de confiança de 95% não excedendo 1,3
para determinar a ICP não-inferior à CRM. Stents convencionais foram
utilizados inicialmente, mas mudou-se para o stent Cypher quando estes
se tornaram disponíveis.
Nos resultados, em 1 ano de acompanhamento, o índice composto de
morte, infarto e AVC foi de 10,5% no grupo da CRM e 13,0% no grupo
ICP (p=0,39), mortalidade por todas as causas foram de 3,2% e 3,2%,
e as taxas de morte, infarto, AVC ou revascularização adicional foram
11,3% e 19,3% (p=0,02), respectivamente. Quando os pacientes que
se submeteram à CRM foram comparados com o subgrupo de pacientes
que receberam stents farmacológicos (69% dos pacientes), as taxas do
desfecho primário foram de 12,4% e 11,6% (p=0,82), respectivamente.
Na conclusão, o estudo CARDIa não mostrou que a ICP é não-inferior à
CRM, em 1 ano de seguimento. Mas seguimento em longo prazo e dados
de outros estudos serão necessários para fornecer uma comparação
mais precisa da eficácia destas estratégias de revascularização.
Comentário = O estudo CARDIa é mais um a falhar na demonstração de
não-inferioridade da ICP sobre a CRM, apesar dos vários truques
metodológicos utilizados aqui para alcançar essa intenção. Além disso, o
estudo CARDIa foi desenhado para alistar 600 paciente, mas falhou
também nesse propósito e reuniu apenas 510 pacientes, perdendo o
poder de análise para os desfechos.
Está em curso o estudo FREEDOM, comparando ICP e CRM em pacientes
diabéticos com doença arterial coronária. Patrocinado pelo NHLBI
(National Heart, Lung, and Blood Institute) dos EUA, com
aproximadamente 2.000 pacientes e os resultados estarão disponíveis
no final de 2011. O desfecho primário é um composto de mortalidade
por todas as causas, infarto do miocárdio não fatal e AVC, avaliados em
cinco anos de seguimento.
Esses estudos têm também o viés de não incluir um grupo de
tratamento clinico para análise comparativa, já que o BARI-2D
demonstrou não haver diferença significativa nos resultados entre os
pacientes diabéticos tratados com ICP versus tratamento clínico
intensivo. No BARI-2D houve vantagem para o pacientes incluídos no estrato da CRM, com diminuição significantemente maior de eventos
cardiovasculares em comparação com a terapia clínica isolada (22,4%
vs 30,5%, P=0,01), impulsionado por uma diferença em redução de IM
não fatal (7,4% vs 14,6%).
Baseado nestes resultados, o American Diabetes Association (ADA),
através de seu presidente eleito Richard Bergenstal, MD, do Centro
Internacional de Diabetes em Park Nicollet, Minneapolis, reforçou a CRM
como a abordagem preferida para pacientes com diabetes, mas
reiterando que o BARI 2D nos ensinou que o tratamento clínico intensivo
pode ser muito poderoso. As decisões dos pacientes com diabetes têm
de incorporar evidências através destes ensaios clínicos, bem como o
julgamento clínico e a preferência do paciente.
Surpreendente elevado número de pacientes com estenose
aórtica sintomática não são submetidos à substituição valvar.
Bach DS , et al. Evaluation of Patients With Severe Symptomatic Aortic Stenosis Who Do Not
Undergo Aortic Valve Replacement. The Potential Role of Subjectively Overestimated
Operative Risk. Circ Cardiovasc Qual Outcomes. 2009;2:533-539.
Apesar da demonstração inequívoca de melhora sintomática e as vantagens de aumento de sobrevida e não obstante as recomendações
das diretrizes, pacientes sintomáticos com estenose aórtica grave (EA)
não são encaminhados para o tratamento de substituição valvar aórtica.
Neste estudo envolvendo 3 grandes instituições de atendimento terciário
nos EUA, foram identificados pacientes com exames ecocardiográficos
com evidência de EA grave durante o ano de 2005. Os prontuários
foram revisados retrospectivamente para os sintomas, encaminhamento
para substituição valvar aórtica, risco operatório calculado e as razões
por que os pacientes não foram submetidos à substituição da valva. Dos
369 pacientes com EA grave, 191 (52%) não foram referidos para a
troca valvar aórtica. Destes, 126 (66%, 34% do total) tinham sintomas
consistentes com EA. As razões mais comuns citadas para omissão de
intervenção foram co-morbidades com alto risco operatório (61
pacientes [48%]), recusa do paciente (24 pacientes [19%]), e sintomas
não relacionados à EA (24 pacientes [19%]). Pacientes operados tinham
risco de mortalidade menor (calculado pelo escore STS) do que
pacientes não operados (1,8% vs 2,7%, P <0,001). No entanto, 28
(24%) dos 126 pacientes sintomáticos não operados tinham risco
perioperatório calculado menor que o risco médio dos pacientes que se
submeteram a troca valvar. Apenas 57 (30%) dos 191 pacientes não
operados foram avaliados por um cirurgião cardíaco.
Na conclusão, um terço dos pacientes com EA grave sintomáticos não
são encaminhados para troca valvar aórtica. Para a maioria dos
pacientes não operados, riscos operatórios objetivamente calculados não parecem proibitivos. Apesar disso, somente uma minoria dos pacientes
não operados foram encaminhados para consulta com cirurgião
cardíaco. Alguns pacientes com sintomas graves podem ter acesso
negado à terapia com potencial de salvar a vida.
FDA alerta para os riscos da interação entre clopidogrel e
inibidores de bomba de prótons.
Food and Drug Adminstration. Public-health advisory: Updated safety information about a
drug interaction between clopidogrel bisulfate (marketed as Plavix) and omeprazole
(marketed as Prilosec and Prilosec OTC). November 17, 2009. Disponível em:
http://www.fda.gov/Drugs/DrugSafety/PublicHealthAdvisories/ucm190825.htm
Food and Drug Administration. Follow-up to the January 26, 2009 early communication
about an ongoing safety review of clopidogrel bisulfate (marketed as Plavix) and omeprazole
(marketed as Prilosec and Prilosec OTC). November 17, 2009. Disponível em:
http://www.fda.gov/Drugs/DrugSafety/PostmarketDrugSafetyInformationforPatientsandProviders/DrugSafetyInformationforHeathcareProfessionals/default.htm
O FDA publicou alerta sobre a possível interação entre o clopidogrel e o
inibidor de bomba de próton omeprazol, informando que novos dados
disponíveis mostram que a eficácia do clopidogrel é reduzida quando
ingerido junto com omeprazol. Pacientes sob risco de infarto do
miocárdio ou acidente vascular cerebral e que utilizam o clopidogrel
para prevenir trombose podem não obter o efeito completo deste
medicamento se estiver também tomando o omeprazol.
O alerta da FDA está baseadas em novos estudos realizados pelo
patrocinador, que comparou a quantidade plasmática de metabólito
ativo do clopidogrel e seu efeito sobre as plaquetas de pacientes que
tomaram clopidogrel vs clopidogrel mais omeprazole. Foi observada uma
redução nos níveis de metabólito ativo de cerca de 45% em pessoas que
receberam clopidogrel com omeprazol em comparação com aquelas que
usaram clopidogrel isolado. O efeito do clopidogrel nas plaquetas foi
reduzido em até 47% em pacientes tomando clopidogrel e omeprazol
juntos. Estas reduções foram observadas com as drogas ingeridas ao
mesmo tempo ou com até 12 horas de intervalo.
Com base nessas informações científicas atualizadas, a bula do
clopidogrel foi atualizada incluindo novas advertências sobre interação
do omeprazol e outros medicamentos que inibem o citocromo P450
2C19 (abreviado CYP2C19).
O FDA aconselha os pacientes em uso de clopidogrel a consultar seu
médico se atualmente está tomando ou intenciona tomar omeprazol.
Acrescenta que os pacientes que usam o clopidogrel e precisam de uma
medicação para reduzir a acidez do estômago podem usar antiácidos ou
antagonistas H2, como a ranitidina, famotidina, ou nizatidine, porque
não há evidências até o momento que estes medicamentos interfiram com a atividade antiplaquetária do clopidogrel. Ressalta que a
cimetidina não deve ser usada.
O FDA alerta também que outras drogas que são potentes inibidores do
CYP2C19 podem ter efeito semelhante e devem ser evitadas em
combinação com o clopidogrel, como: cimetidina, fluconazol,
cetoconazol, voriconazol, a etravirina, felbamato, fluoxetina,
fluvoxamina e ticlopidina.
Resposta ao clopidogrel é reduzida em pacientes com
insuficiência renal crônica.
Park SH , et al. A comparison of clopidogrel responsiveness in patients with versus without
chronic renal failure. Am J Cardiol. 2009;104(9):1292-5.
O objetivo do estudo foi comparar a resposta plaquetária ao clopidogrel
entre os pacientes com insuficiência renal crônica e aquelas com função
renal normal.
Estudo prospectivo, randomizado, aberto e realizado em centro único,
envolveu 23 pacientes com função renal normal para receber uma dose
diária usual de 75 mg de clopidogrel (grupo l). Além disso, 36 pacientes
com insuficiência renal crônica foram divididos em 2 grupos de acordo
com a dose diária de clopidogrel: dose diária de 75 mg de clopidogrel
por 30 dias (grupo II, n=18) ou um dose diária de 150 mg (grupo III,
n=18). As variáveis de eficácia primária entre os grupos foram avaliados
usando o ensaio P2Y12 VerifyNow e percentual de inibição. Uma
diferença significativa foi encontrada nos valores de P2Y12 entre os 3
grupos (239±87 no grupo I, 308±70 no grupo II, 302±81 no grupo III;
p=0,013) e na porcentagem de inibição (35±20 no grupo I, 21±16 no
grupo II, 23±14 no grupo III, p=0,026). Nenhuma diferença
significativa foi encontrada nas unidades de reação P2Y12 ou a
percentagem de inibição entre os grupos II e III.
Na conclusão, a resposta plaquetária ao clopidogrel é reduzida em
pacientes com insuficiência renal crônica comparada com aqueles com
função renal normal, e essa capacidade de resposta diminuída das
plaquetas ao clopidogrel não foi melhorada por um aumento na dose de
clopidogrel.
Resultados do estudo CASCADE demonstram não haver
benefícios da adição de clopidogrel sobre a patência de enxertos
de veia safena após a cirurgia de revascularização miocárdica.
Kulik A, et al. Clopidogrel after surgery for coronary artery disease. Clopidogrel and aspirin
versus aspirin (ASA) alone after coronary bypass surgery. American Heart Association’s 2009 Scientific Sessions. Disponível em:
http://directnews.americanheart.org/extras/sessions2009/slides/128_pslides.pdf
O estudo CASCADE, apresentado em novembro no American Heart
Association’s 2009 Scientific Sessions em Orlando, mostrou que a adição
de clopidogrel à aspirina não conseguiu reduzir significativamente a
hiperplasia intimal no enxerto de veia safena dos pacientes submetidos à cirurgia de revascularização miocárdica (CRM), em comparação com a
aspirina isoladamente.
Degeneração do enxerto da veia safena compromete os efeitos em
longo prazo da CRM, portanto pacientes com enxerto de veia safena tem
mais alto risco de eventos cardiovasculares subseqüentes.
A hiperplasia intimal propicia a base para a formação do ateroma que
vai obstruir os enxertos venosos. A justificativa para o estudo CASCADE
foi que o clopidogrel, mas não a aspirina, pode inibir a hiperplasia dos
enxertos venosos.
Este estudo multicêntrico, duplo-cego, controlado por placebo, incluiu
pacientes submetidos a CRM multiarterial com pelo menos dois enxertos
venosos. Os pacientes foram randomizados no dia da cirurgia para
receber aspirina 162 mg/dia e clopidogrel 75 mg/dia, ou a mesma dose
de aspirina e placebo por 1 ano. A angiografia coronária e o ultra-som
intravascular (IVUS) foram realizados para determinar em 1 ano o
desfecho primário de medida da área de íntima do enxerto venoso.
Patência do enxerto venoso, eventos cardíacos adversos maiores
(MACE) e sangramento também foram avaliados.
Não houve diferença significativa entre os dois grupos na área de íntima
dos enxertos venosos, no entanto, os pacientes que receberam
clopidogrel tiveram uma redução não significante de 14,8% na área de íntima.
Patência dos enxertos foi semelhante nos dois grupos: 94% e 93%,
respectivamente e a incidência de MACE também foi similar nos dois
grupos. Maior débito pelos drenos torácicos foi observado no grupo
clopidogrel, mas sem aumento na necessidade de transfusão de
hemoderivados. Dois pacientes do grupo clopidogrel/aspirina (3,6%)
tiveram sangramento maior, em comparação com nenhum dos
pacientes no grupo aspirina isolada.
Portanto, os resultados deste estudo não suportam a dupla terapia
antiplaquetária em pacientes após CRM para redução de oclusão de
enxertos de veia safena.
Dispositivos de assistência ventricular esquerda de fluxo
contínuo podem ser melhores que os de fluxo pulsátil em
pacientes com insuficiência cardíaca avançada.
Slaughter MS, et al. Advanced Heart Failure Treated With Continuous-Flow Left Ventricular
Assist Device. N Engl J Med. 2009;361(23):2241-51.
O estudo investigou como o desempenho dos novos modelos de
dispositivos de assistência ventricular esquerda (LVAD) de fluxo
contínuo (HeartMate II) se comparam com os modelos mais
convencionais de fluxo pulsátil HeartMate XVE.
O HeartMate II foi um estudo randomizado que envolveu pacientes com
insuficiência cardíaca avançada que eram inelegíveis para transplante
cardíaco, para implante na proporção 2:1 do dispositivo de fluxo
contínuo HeartMate II (n=134) ou o dispositivo de fluxo pulsátil
atualmente aprovado HeartMate XVE (n=66). O desfecho primário
composto incluiu a sobrevida livre de AVC e reoperação até o reparo ou
substituição do dispositivo ao final de 2 anos. Desfechos secundários
incluíram a mortalidade, a capacidade funcional, freqüência de eventos
adversos, bem como a qualidade de vida.
As características pré-operatórias foram semelhantes nos dois grupos de
tratamento, com uma idade mediana de 64 anos (variação, 26-81),
média de fração de ejeção de 17% e quase 80% da coorte de estudo
recebendo inotrópicos intravenosos. O desfecho primário composto foi
observado mais freqüentemente em pacientes com dispositivos de fluxo
contínuo do que naqueles com dispositivos de fluxo pulsátil (62 de 134
[46%] vs 7 de 66 [11%]; p<0,001). Pacientes com dispositivos de fluxo
contínuo tiveram melhor sobrevida atuarial em 2 anos (58% vs 24%,
p=0,008). Houve menos eventos adversos e substituições de
dispositivos em pacientes com o dispositivo de fluxo contínuo. A
qualidade de vida e capacidade funcional melhoraram significativamente
nos dois grupos.
Os investigadores concluíram que a terapia de LVAD com dispositivo de
fluxo contínuo em pacientes com insuficiência cardíaca avançada
melhorou significativamente a probabilidade de sobrevida livre de AVC e
insuficiência do dispositivo em 2 anos, em comparação com um
dispositivo pulsátil. Ambos os dispositivos melhoraram
significativamente a qualidade de vida e capacidade funcional.
Análise secundária do estudo BARI-2D mostra que cirurgia de
revascularização do miocárdio pode ser custo-efetiva.
Hlatky MA, et al. Economic Outcomes of Treatment Strategies for Type 2 Diabetes Mellitus
and Coronary Artery Disease in the Bypass Angioplasty Revascularization Investigation 2
Diabetes Trial. Circulation. 2009 Nov 17. [Epub ahead of print]
Neste estudo secundário do BARI-2D foram analisados os resultados
econômicos das estratégias de tratamento.
O BARI 2D randomizou pacientes com diabetes mellitus tipo 2 e doença
coronariana estável para as estratégias de (1) revascularização imediata
vs tratamento clínico com a revascularização realizada tardiamente
como forma de aliviar os sintomas e (2) terapia de sensibilização ou
reposição de insulina. Antes da randomização, o médico do paciente
declarou se a cirurgia de revascularização miocárdica (CRM) ou
intervenção coronária percutânea (ICP) seria o método utilizado se o
paciente fosse para revascularização. Foram seguidos 2.005 pacientes
para avaliar a relação custo-eficácia destas estratégias de tratamento.
Os custos médicos foram maiores para a revascularização do que a
terapia médica, com uma interação significativa com o método de
tratamento de revascularização intencionado (P<0,0001). Na estratégia
cirurgia de revascularização miocárdica, os custos em 4 anos foram de
US$ 80.900 para a revascularização versus $ 60.600 para a terapia
médica (P<0,0001). Na estratégia de intervenção coronária percutânea,
os custos foram de US$ 73.400 para a revascularização versus $ 67.800
para a terapia médica (P<0,02). Os custos também foram maiores para
a sensibilização de insulina ($ 71.300) contra a reposição de insulina ($
70.200). A relação custo-eficácia com base em dados de 4 anos
favoreceu a estratégia de tratamento clínico sobre a de revascularização
imediata e a estratégia de reposição de insulina sobre a sensibilização
de insulina. Projeções de custo-efetividade mostraram que o tratamento
clínico é custo-efetivo em comparação com a revascularização no
estrato intervenção coronária percutânea ($ 600 por ano de vida
acrescentado) com alta confiabilidade. Projeções sugerem que a
revascularização pode ser custo-efetivo no estrato da cirurgia de
revascularização do miocárdio ($ 47.000 por ano de vida acrescentado),
mas com menor confiabilidade.
Na conclusão, revascularização coronária imediata aumenta
significativamente os custos entre os pacientes com diabetes mellitus
tipo 2 e doença coronariana estável. A estratégia de tratamento clínico
(com revascularização tardia se necessário) parece ser custo-efetiva em
comparação com a estratégia de revascularização coronária imediata
entre os pacientes identificados, a priori, como adequados para a
intervenção coronária percutânea.
Outra análise secundária do estudo BARI-2D mostra que cirurgia
de revascularização do miocárdio reduz incidência de infarto do
miocárdio .
Chaitman BR, et al. The Bypass Angioplasty Revascularization Investigation 2 Diabetes
Randomized Trial of Different Treatment Strategies in Type 2 Diabetes Mellitus With Stable
Ischemic Heart Disease. Impact of Treatment Strategy on Cardiac Mortality and Myocardial
Infarction. Circulation. 2009 Nov 17. [Epub ahead of print]
O estudo BARI 2-D avaliou em 2.368 pacientes com cardiopatia
isquêmica estável randomizados para intervenção coronária percutânea
ou cirurgia de revascularização miocárdica os resultados em 5 anos.
Neste relato foram examinamos os desfechos secundários de morte
cardíaca e infarto do miocárdio (IM).
Os resultados foram analisados por intenção de tratar, o método de
Kaplan-Meier foi utilizado para avaliar as taxas de eventos em 5 anos.
No acompanhamento médio de 5,3 anos, houve 316 mortes (43% foram
atribuídos a causas cardíacas) e 279 primeiros eventos de IM. A
mortalidade cardíaca em cinco anos não diferiu entre revascularização
mais o tratamento clínico intensivo (5,9%) versus tratamento clínico
intensivo isoladamente (5,7%, P=0,38) ou entre a sensibilização à
insulina (5,7%) e reposição de insulina (6%, P=0,76). No estrato
cirurgia de revascularização do miocárdio (n=763), eventos de IM foram
significativamente menos freqüentes na revascularização mais
tratamento clínico intensivo versus tratamento clínico intensivo
isoladamente (10,0% versus 17,6%, P=0,003), e o desfecho composto
de morte por todas as causas ou infarto do miocárdio (21,1% versus
29,2%, P=0,010) e morte cardíaca ou IAM (P=0,03) também foram
menos freqüentes. Redução em IM (P=0,001) e morte cardíaca/IM
(P=0,002) foram significantes apenas no grupo de sensibilização de
insulina.
Os autores concluem que, em muitos pacientes com diabetes tipo 2 e
doença isquêmica coronariana estável, nos quais os sintomas de angina
são controladas, semelhantes aos alocados no estrato intervenção
coronária percutânea, tratamento clínico intensivo isolado deve ser a
estratégia de primeira escolha. Em pacientes com doença coronariana
mais extensa, semelhantes aos alocados no estrato cirurgia de
revascularização do miocárdio, cirurgia imediata de revascularização do
miocárdio, na ausência de contra-indicações, mais o tratamento clínico
intensivo, e uma estratégia de sensibilização à insulina parecem ser a
estratégia terapêutica preferida para reduzir a incidência de infarto do
miocárdio.
Plantões e chamados noturnos podem aumentar o risco de
doenças cardiovasculares em médicos.
Rauchenzauner M, et al. Arrhythmias and increased neuro-endocrine stress response during
physicians' night shifts: a randomized cross-over trial. Eur Heart J 2009; 30: 2606–2613.
O objetivo deste estudo foi avaliar nos médicos em serviço de urgência
("turno da noite"), os efeitos de um plantão de 24 horas no
eletrocardiograma (ECG) de 24 h, variabilidade da freqüência cardíaca,
pressão arterial (PA) e em vários marcadores bioquímicos de estressse plasmáticos e urina em comparação com um "dia normal" de trabalho.
Trinta médicos saudáveis com uma idade mediana de 33,5 anos
(intervalo 29-45 anos) foram analisados. ECG e monitorização da PA em
24 hs foram realizados e os participantes foram orientados a preencher
um diário de eventos e realizar coleta de urina 24 h. Além disso,
amostras de sangue foram colhidas antes e depois do plantão e o
controle “dia normal”. O ECG 24h mostrou uma maior taxa de extrasístoles
ventriculares durante a madrugada quando comparado com o
respectivo controle “noite em casa”. Durante o plantão, o
acompanhamento da PA revelou uma maior PA diastólica durante 24 h
(83,5 vs 80,2 mmHg, P=0,025), bem como durante a noite (75,4 vs
73,0, P=0,028), associada a uma maior taxa de pressão arterial sistólica
superior a 125 mmHg durante o período de sono. Concentrações do
fator de necrose tumoral alfa (TNF-a) aumentaram significativamente
durante o turno da noite (0,76 vs 0,05 pg/mL, P=0,045). Excreção
urinária de noradrenalina foi maior durante o plantão, quando
comparados com o controle “dia normal” (46,0 vs 36,0 h μg/24,
P=0,007).
Os autores concluem que os resultados destacam a associação do
período noturno de trabalho com um perfil de risco aumentado para
doença cardiovascular. Além dos efeitos agudos observados, chamados
freqüentes à noite durante um período mais longo eventualmente
provocar alterações sustentadas na homeostase cardiovascular.
No editorial que acompanha o artigo, Andrew Steptoe (University
College London, UK) comenta que estes achados indicam que
interrupções de sono resultam em uma ampla gama de distúrbios
psicobiológicos, incluindo mudança de controle autonômico cardíaco de
parassimpático para ativação simpática, reforço do débito
simpatoadrenal e aumento da resposta inflamatória.
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