Boletim Científico - Número 9 - Setembro de 2008
Editores:
Walter J. Gomes – wjgomes.dcir@epm.br
Domingo M. Braile – domingo@braile.com.br
Prezados amigos
Este é o nono número deste ano do Boletim Científico da SBCCV, abrangendo tópicos de interesse clínico e cirúrgico.
Os artigos são apresentados em forma de resumo comentado e se houver
interesse do leitor no artigo completo em formato PDF, este pode ser
solicitado no endereço eletrônico revista@sbccv.org.br
Ressaltamos que será bem-vindo o envio de artigos de interesse por parte
da comunidade de cirurgiões cardiovasculares. Também comentários,
sugestões e críticas são estimulados e devem ser enviados diretamente aos
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Para pedido do artigo na íntegra – revista@sbccv.org.br
Resultados em longo-prazo do uso de enxerto bilateral
esqueletonizado de artéria torácica interna.
Pevni D et al. Routine Use of Bilateral Skeletonized Internal Thoracic Artery Grafting. Long-
Term Results. Circulation. 2008;118:705-712.
A dissecção esqueletonizada da artéria torácica interna (ATI) diminui a
gravidade da desvascularização do esterno, reduzindo assim o risco de
complicações pós-operatórias em pacientes submetidos a enxerto
bilateral de ATI. Este estudo analisou 1.515 pacientes consecutivos
submetidos a enxerto bilateral de ATI esqueletizada, onde 34,2%
tinham diabetes mellitus. A mortalidade operatória foi de 2,8%. Amorbidade pós-operatória imediata incluiu infecção esternal (1,6%), acidente vascular cerebral (3%) e IAM peri-operatório (1%). A análise
de regressão múltipla mostrou que doença pulmonar obstrutiva crônica,
reoperação e diabetes mellitus foram associados ao aumento do risco de
infecção esternal. Análise de regressão de Cox revelou aumento da
mortalidade global (precoces e tardias) em pacientes com doença
arterial periférica, pacientes > 75 anos de idade, reoperações, pacientes
com insuficiência cardíaca congestiva pré-operatória e aqueles com
insuficiência renal crônica. Pacientes operados sem circulação
extracorpórea tiveram maior sobrevida pós-operatória. Os autores
concluem que enxertos bilaterais de ATI estão associados com baixa
morbidade e bons resultados em longo prazo. O uso de enxerto bilateral
esqueletizado é adequado para os idosos e a maioria dos pacientes com
diabetes; porém, não é recomendada para reoperações ou para
pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica.
Angiografia por tomografia computadorizada multi-slice pode
evitar investigação invasiva da doença arterial coronária.
Henneman et al. Multi-slice computed tomography coronary angiography for ruling out
suspected coronary artery disease: what is the prevalence of a normal study in a general
clinical population? Eur Heart J 2008; 29: 2006-2013
Este estudo objetivou avaliar a prevalência de achado de uma
angiotomografia computadorizada multi-slice (ATCMS) coronária normal
em pacientes com suspeita de doença arterial coronariana (DAC) e
relacionar estas observações à apresentação clínica e probabilidade de
DAC.
No total, 340 pacientes consecutivos (182 homens, 55 ± 12 anos) sem
história de DAC e que foram encaminhados para a ATCMS foram
incluídos no estudo. Com base nas características dos pacientes, eles
foram classificados como tendo baixa, média ou alta probabilidade de
DAC. Os pacientes foram avaliados quanto à presença de cálcio nas
artérias coronárias, bem como a presença de aterosclerose. No total,
157 (46%) pacientes não tinham cálcio nas artérias coronárias e 133
(40%) dos pacientes tiveram uma ATCMS completamente normal. Em
58% dos pacientes com baixa probabilidade pré-teste, não foi observada
aterosclerose coronariana, quando comparada com 33% e 17% dos
pacientes com média e alta probabilidade pré-teste, respectivamente.
Os autores concluem que a ATCMS pode excluir aterosclerose
coronariana em 40-46% dos pacientes sem conhecimento prévio da DAC
e que foram encaminhados para a ATCMS. Assim, em pacientes com
baixa/média probabilidade pré-teste, ATCMS pode ser uma modalidade
atraente para excluir aterosclerose coronariana e pode evitar exames
desnecessários adicionais de função ou angiografia invasiva.
Angiotomografia coronária permite diagnóstico preciso das
estenoses coronárias significativas, com baixa dose de radiação.
H Scheffel et al. Low-dose CT coronary angiography in the step-and-shoot mode: diagnostic
performance. Heart 2008; 94: 1132-1137.
O objetivo deste trabalho foi investigar a desempenho da angiografia
coronária por tomografia computadorizada (ACTC) de dupla fonte e dose
baixa no diagnóstico de estenoses significativas de artérias coronárias,
em comparação com a angiografia coronária convencional (ACC).
Estudo prospectivo realizado em único centro com 120 pacientes, todos
os participantes realizaram ACTC e ACC no prazo de 14 dias. Em 27
pacientes foram administrados B-bloqueadores EV para a redução da
freqüência cardíaca antes da TC. Os pacientes foram excluídos se uma
freqüência cardíaca alvo de 70 bpm não pode ser alcançada por B-bloqueadores ou quando os pacientes não estavam em ritmo sinusal.
Dois leitores cegos ao método avaliaram independentemente os exames
para a presença de estenoses coronárias importantes (> 50%).
A ACTC foi realizada com sucesso em todos os 120 pacientes, com boa
qualidade de imagem diagnóstica em 109/120 pacientes (91%). A
sensibilidade, especificidade, VPP e VPN para o diagnóstico de estenoses
significativas foram 100%, 93%, 94% e 100%, respectivamente.
Os autores concluem que a ACTC permite, em pacientes selecionados
com um ritmo cardíaco regular, o diagnóstico preciso das estenoses
coronárias significativas, com baixa dose de radiação.
Estudo COURAGE: avaliação de custo-efetividade entre
angioplastia e tratamento clínico.
Weintraub WS, on Behalf of the Department of Veterans Affairs Cooperative Studies
Program No. 424 (COURAGE Trial) Investigators and Study Coordinators. Cost-
Effectiveness of Percutaneous Coronary Intervention in Optimally Treated Stable Coronary
Patients. Circ Cardiovasc Qual Outcomes 2008;1:12-20.
O estudo COURAGE comparou o efeito da intervenção coronária
percutânea (ICP) acrescido da terapia médica otimizada com a terapia
médica otimizada sozinha, em 2287 pacientes com doença coronariana
estável. Após 4,6 anos, não houve diferença no desfecho final primário
de morte ou infarto do miocárdio, embora a ICP melhorasse a qualidade
de vida. A presente análise avaliou no estudo COURAGE o custo relativo
e a relação custo-efetividade da ICP
O custo adicionado da ICP foi de aproximadamente US$ 10.000, sem
ganho significativo em anos de vida ou na qualidade de vida ajustada
para os anos-vida. O custo-efetividade variou de pouco mais de US$ 168.000 para pouco menos de US$ 300.000 por ano-vida ou qualidade
de vida ajustada ganha com a ICP. Constatou-se que a terapia médica
ofereceu melhor resultado por si só a um custo mais baixo. O custo por
paciente para uma melhoria significativa na freqüência de angina,
limitação física, e qualidade de vida foram de US$ 154.580, $ 112.876,
e $ 124.233, respectivamente.
Os autores concluem que o estudo COURAGE não demonstrou que a
adição da ICP à terapia médica otimizada seja custo-efetiva no manejo
inicial da doença arterial coronária crônica sintomática.
Estudo SIMA. Dez anos de seguimento comparando cirurgia
versus angioplastia com stent no tratamento da lesão isolada
proximal da artéria descendente anterior.
Goy JJ et al. 10-Year Follow-Up of a Prospective Randomized Trial Comparing Bare-Metal
Stenting With Internal Mammary Artery Grafting for Proximal, Isolated De Novo Left Anterior
Coronary Artery Stenosis The SIMA (Stenting versus Internal Mammary Artery grafting)
Trial. J Am Coll Cardiol 2008;52(10):815-7.
O estudo SIMA (Stent versus Internal Mammary Artery grafting) foi concebido para comparar os resultados clínicos de longo prazo da revascularização cirúrgica do miocárdio (CRM) com stent intracoronário em pacientes com lesão proximal isolada da artéria coronária descendente anterior. Os pacientes foram divididos aleatoriamente para implante de stent versus CRM.
Foram avaliados os resultados de 10 anos. Dos 123 pacientes randomizados, 59 foram submetidos a CRM e 62 receberam stent (2
pacientes foram excluídos). Seguimento após 10 anos foi obtido em
98% dos pacientes randomizados. Vinte e seis pacientes (42%) no
grupo intervenção coronária percutânea (ICP) e 10 pacientes (17%) do
grupo CRM atingiram desfecho (p <0,001). Esta diferença foi devida a
uma maior necessidade de revascularização adicional no grupo ICP. A
incidência de infarto do miocárdio e morte foram idênticas em 10%.
Trombose de stent ocorreu em 2 pacientes (3%).
Significativamente mais pacientes no grupo ICP necessitaram
revascularização adicional (18 pacientes ICP [30%] vs 3 pacientes CRM
[5%]). Revascularização da DA foi necessária em 15 pacientes no grupo
ICP (25%) quando comparado com nenhum no grupo CRM (p < 0,001).
Finalmente, 8 pacientes do grupo ICP foram submetidos a CRM como
um procedimento adicional de revascularização. Aos 10 anos, a maioria
dos pacientes nos dois grupos estava assintomática (93%) ou tinha
angina leve (7%). Em nenhum paciente randomizado para CRM houve
necessidade de uma segunda revascularização da DA. Os resultados
confirmam o excelente resultado através da CRM com uso de enxerto de
artéria mamaria esquerda, que tem sido demonstrado que continuam patentes em longo-prazo. A ICP foi seguida por uma maior taxa de reintervenção.
Revascularização completa aumenta sobrevida em cirurgia de
revascularização miocárdica com e sem CEC.
Although OM et al. Influence of On-Pump Versus Off-Pump Techniques and Completeness
of Revascularization on Long-Term Survival After Coronary Artery Bypass. Ann Thorac Surg
2008;86:797-805.
A cirurgia de revascularização miocárdica sem circulação extracorpórea
(CEC) pode estar associada com redução da morbidade e mortalidade
intra-hospitalar. Este estudo reporta a influência do tipo de cirurgia,
número de enxertos, e o Índice de Integralidade de Revascularização
(ICOR), ou seja, o número de enxertos / número de sistemas arteriais
coronários doentes, na sobrevida em longo prazo.
De 1997 a 2006, 12.812 pacientes consecutivos submetidos a CRM
isolada em um único centro acadêmico. Dados de dez anos de sobrevida
foram obtidos e analisados 46 fatores de risco pré-operatórios entre
grupos cirúrgicos. Análise de regressão examinou o risco de morte como
em função do tipo de cirurgia (com CEC vs sem CEC), grupo de
anastomoses distais (1 a 3 versus 4 a 7 enxertos), ICOR e escore de
propensão.
A análise de regressão não mostrou influência significativa do tipo de
cirurgia ou número de enxertos na sobrevida em longo prazo dentro dos
quatro grupos: CRM sem CEC 1 a 3 (n = 3946; ICOR 1,11), sem CEC 4
a 7 enxertos (n = 1721; ICOR 1,56), CRM com CEC 1 a 3 enxertos (n =
3380; ICOR 1,21), e CRM com CEC 4 a 7 enxertos (n = 3765; ICOR
1,64). Independentemente da técnica de revascularização, houve uma
vantagem de sobrevida para os pacientes com maior ICOR
(revascularização completa).
Os autores concluem que a sobrevida em longo prazo foi semelhante
para os pacientes operados com e sem CEC, com 1 a 3 ou 4 a 7
enxertos. No entanto, o índice ICOR elevado foi associado com melhora
de sobrevida em longo prazo dentro de todos os grupos.
EuroSCORE não deve ser utilizado para determinar risco
operatório em pacientes de troca valvar aórtica.
Brown ML et al. Is the European System for Cardiac Operative Risk Evaluation model valid
for estimating the operative risk of patients considered for percutaneous aortic valve
replacement? J Thorac Cardiovasc Surg 2008;136:566-571.
O EuroSCORE tem sido utilizado para definir um grupo de risco
particularmente elevado de pacientes na substituição da valva aórtica no qual os processos alternativos, tais como procedimentos percutâneos de
valva aórtica, pode ser apropriada. O objetivo deste trabalho foi analisar
a validade desta avaliação dos riscos em um centro cardíaco terciário de
grande volume.
Entre janeiro de 2000 e dezembro de 2006, um total de 1177 pacientes
foram submetidos a troca valvar aórtica isolada na Mayo Clinic. O
EuroSCORE aditivo e logístico foram calculados para cada paciente.
A média de idade dos pacientes foi de 68,0 anos e 36,8% eram do sexo
feminino. As variáveis utilizadas no cálculo do Euroscore incluíram
doença pulmonar crônica (15% da casuística), arteriopatias extra
cardíacas (13,8%), disfunção neurológica (0,2%), cirurgia cardíaca
prévia (23,2%), insuficiência renal (6,5%), endocardite ativa (3,1%),
infarto do miocárdio recente (1,1%), angina instável (0,1%) e
hipertensão pulmonar grave (6,5%). A fração de ejeção era
severamente reduzida (S 30%) em 4,9% dos pacientes e
moderadamente reduzido (S 50%) em 12,7% dos pacientes. Um por
cento dos pacientes estava em estado crítico e a operação foi realizada
com urgência em 3,4% dos pacientes. Embora as estimativas de
mortalidade média fossem de 6,9% ± 3,4% (EuroSCORE aditivo) e
10,9% ± 12,7% (logístico), a mortalidade operatória global nos
pacientes foi de 2,5%. O EuroSCORE aditivo e logístico superestimou a
mortalidade operatória em 17,8%.
Os autores concluem que o EuroSCORE não deve ser usado para
determinar a operabilidade dos pacientes na substituição isolada da
valva aórtica. EuroSCORE elevados isoladamente não definem
adequadamente uma população para implante de valva aórtica
percutânea.
O enxerto de artéria torácica interna direita pode proporcionar
resultados similares quando anastomosado na artéria circunflexa
ou coronária direita.
Sabik JF et al. Does Location of the Second Internal Thoracic Artery Graft Influence
Outcome of Coronary Artery Bypass Grafting? Circulation. 2008;118:S210-S215.
Este estudo da Cleveland Clinic procurou-se determinar se a artéria
coronária alvo do segundo enxerto de artéria torácica interna (ATI) afeta
a morbidade e mortalidade em pacientes com doença de 3-V e
identificar os fatores associados com a localização da segunda ATI.
No total, 3.611 pacientes com doença de 3-V foram submetidos a
enxerto bilateral de ATI, com um enxerto anastomosado ao sistema da
artéria descendente anterior e o segundo ou no sistema da artéria
circunflexa (n = 2926) ou no sistema da artéria coronária direita (n =
685). Seguimento foi de 9,2±7,2 anos. A mortalidade hospitalar (0,34% versus 0,58%; P=0,4), acidente vascular cerebral (0,96% versus
0,88%; P=0,8), infarto do miocárdio (1,3% versus 0,73%; P=0,2),
insuficiência renal (0,44% versus 0,29%; P=0,6), insuficiência
respiratória (3,5% versus 3,8%; P=0,7) e reoperação por sangramento
(3,4% versus 3,2%; P=0,8) foram semelhantes nos pacientes que
receberam a segunda ATI para a circunflexa ou para a artéria coronária
direita e permaneceu semelhante após ajuste por escore de propensão.
A sobrevida tardia (86% versus 87% em 10 anos) também foi
semelhante. Apesar disso, houve no serviço um declínio gradual no uso
da segunda ATI para a artéria coronária direita.
Os autores concluem que, contrariamente à crença prevalecente de que
a segunda ATI deve ser anastomosada ao segundo mais importante
vaso da artéria coronária esquerda, os dados demonstram que pode ser
colocada tanto para a circunflexa como para a artéria coronária direita,
com resultados tardios semelhantes.
Oclusões de enxertos em cirurgia de revascularização miocárdica
são mais freqüentes em diabéticos.
Singh SK et al. The Impact of Diabetic Status on Coronary Artery Bypass Graft Patency.
Insights From the Radial Artery Patency Study. Circulation 2008;118:S222-S225.
Este estudo avaliou o impacto do diabetes mellitus na patência dos
enxertos, 1 ano apos a cirurgia de revascularização do miocárdio,
utilizando dados de um ensaio multicêntrico randomizado (Radial Artery
Patency Study).
O estudo envolveu 561 pacientes submetidos a cirurgia de
revascularização miocárdica, comparando a patência do enxerto de veia
safena (VS) versus artéria radial. Seguimento angiográfico foi possível
em 440 pacientes (115 diabéticos, 325 não diabéticos). Características
pré-operatórias foram semelhantes. A proporção de artérias coronárias
de pequeno e médio calibre foi maior em pacientes diabéticos (P=0,04).
Em 1 ano, 33 de 230 enxertos estudados (14,4%) em diabéticos
estavam ocluidos versus 63 de 650 (9,7%) em não diabéticos
(P=0,052). Regressão multivariável mostrou que diabetes é um preditor
independente significativo de oclusão de enxerto em 1 ano (P=0,03),
juntamente com o sexo feminino, enxertos de VS e artérias coronárias
de calibre pequeno. Uma percentagem significativamente superior de
enxertos de VS estava ocluídos nos diabéticos (19% versus 12%,
P=0,04). Enxertos de artéria radial foram protetores na coorte de
diabéticos (artéria radial: 11 de 115 ocluídos [9,5%] versus VS: 22 de
115 ocluído [19,1%]).
Os autores concluem que as oclusões de enxerto na cirurgia de
revascularização do miocárdio foram mais freqüentes entre diabéticos do que não diabéticos na angiografia de 1 ano, principalmente devido a falência de enxerto de VS em diabéticos. A artéria radial, em comparação com enxertos de VS, foram protetores tanto em pacientes diabéticos como não diabéticos.
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