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Cirurgia Cardíaca e a Realidade Brasileira

Em abril do ano corrente, completei doze meses como membro do conselho deliberativo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular. Durante esse período, tive o prazer de conhecer a grande maioria dos cirurgiões que compõem essa sociedade e com certeza, isso eu posso afirmar, todos trabalham para manter o espírito solidário-social, a dignidade, a honradez e o prestigio Nacional e Internacional que a cirurgia cardíaca do nosso país galgou em sua curta existência. O legado deixado por seus fundadores – Prof. Euricledes de Jesus Zerbini, Prof. Adib Jatene e outros igualmente importantes – jamais será levado ao esquecimento, e seus ideais e ensinamentos continuarão com as novas gerações.Hoje, há menos que novecentos cirurgiões em todo o Brasil. É bem verdade que esse numero tem aumentado nos últimos vinte anos, mas ainda é pequeno em comparação com a nossa população, que é de cento e setenta milhões de habitantes.

Estamos presentes em quase todos os recantos do território brasileiro e levamos a quem necessita de nossa ajuda, uma medicina digna e de ponta, sem fazer distinção de classe social. Mas, muito nos entristece quando escutamos as afirmativas, daqueles que pouco sabem da nossa história e das dificuldades que enfrentamos a cada dia, para trabalharmos dignamente. Afirmam eles, que os custos dispensados em nosso tratamento seriam mais justamente aplicados na prevenção de doenças endêmicas, puerperais e em saneamento básico, diminuindo assim a mortalidade infantil e doenças infecto-contagiosas. Ora! Caros leitores, pensar assim é ser retrogrado, é ser apoucado. A medicina e a arte de curar como um exercício cirúrgico tem que ser para todos, independente de quem seja ou de que classe social pertença. Os pacientes que nos procuram não escolheram suas doenças, eles apenas ás tem e anseiam por cura. As mazelas que acometem o ser humano devem ser combatidas e não devemos medir esforços. O governo federal, o estadual e o municipal, a população como comunidade de classe participativa, empresários, poder judiciário e classe médica tem por obrigação unirem-se, para encontrar soluções que atendam o nosso povo carente.

O que vemos hoje, é um esforço solitário da SBCCV e de alguns grupos de médicos idealistas, que implantam serviços em hospitais privados e fazem convenio com o governo para tratar pacientes cardiopatas oriundos do Sistema Único de Saúde. Com o tempo, muitos deles abandonam essa sociedade, por existir prejuízo continuado para as contratadas. Deixando assim milhares de brasileiros sem assistência e conseqüentemente relegados a condição de não cidadão brasileiro, como assim rege a nossa carta Magna, que afirma: “todo cidadão tem direito à saúde”.

Hoje são realizadas no Brasil cinqüenta e oito mil cirurgias por ano, quando o mínimo aceitável deveria ser cento e cinqüenta mil intervenções cirúrgicas. A cada ano nascem trinta e oito mil crianças com cardiopatias congênitas que necessitam de alguma intervenção cirúrgica e apenas oito mil e quinhentas delas são operadas. As doenças cardiovasculares são responsáveis por trezentos mil óbitos por ano em nosso país, correspondendo a trinta porcento dos óbitos totais no Brasil. Neste grupo, os infartos agudos do miocárdio levam ao falecimento cinqüenta e oito mil brasileiros por ano sem nenhum tratamento intervencionista e chegamos a operar apenas trinta e dois mil por ano para realização de revascularização do miocárdio.

Vejam meus caros leitores, estamos muito longe de alcançar o ideal aceitável. Mas, se unirmos nossas forças e a nossa capacidade de trabalho e encontrarmos compreensão e maiores ajudas dos órgãos governamentais, com certeza, conseguirão minorar essas diferenças e trazer esse povo sofrido e carente para mais perto de nós, que fomos e somos privilegiados por termos saúde e termos tido oportunidade de estudo em nosso país. Reflitamos sobre o que disse Marco Túlio Cícero a mais de dois mil anos: “Subtrair algo a outro e que o homem aumente seu beneficio com prejuízo de outro é mais contrario á natureza do que a pobreza, do que a dor, do que tudo o demais que pode acontecer ao corpo e aos bens externos. Pois, sobretudo, acaba com a vida em comum e com a sociedade humana. Se nos acostumarmos a cada um despojar o outro para conseguir sua própria vantagem, se desagregará a convivência humana , que é o mais conforme que há com a natureza”.

As palavras do grande tribuno Romano são atuais e hoje estamos vivendo esta realidade nos grandes centros urbanos e a responsabilidade de encontrar soluções é de toda sociedade brasileira.

Natal 21 de maio de 2003.

Marcelo Matos Cascudo
Cirurgião Cardiovascular

Membro do Conselho Deliberativo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular

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